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Thursday, February 24, 2005

 
Lendo a Carolica se perguntando quem ela matou, me pus a refletir. Eu sei quem eu matei. Foi uma menina tímida, de aparelho, cabelo rebelde, magrela, anti-social, carente, cheia de paranóias que se contentavam com livros e estudos, assustada. Foi ela. E eu não sinto falta dela e duvido que mais alguém sinta.

No lugar dela veio uma menina-moça em eterna melancolia por não saber se portar dentro de seu próprio corpo. Uma que trocou algumas paranóias e carências e aflições antigas por uma dúzia de novas preocupações. Que não se esconde mais tanto atrás de livros e estudos, mas sim atrás de bebidas alcóolicas e cigarros e fumaça de algum escuro de boate, sob uma batida ensurdecedora de alguma música sacolejante. Que se sente forte em cima de saltos e sabe domar a rebeldia do cabelo quando tem vontade ou paciência para tal.

Algumas coisas dela ainda existem por aqui, como a queda pelo menino mais inteligente, ao invés do mais bonito e popular. Hoje em dia, como outrora, é pra ter assunto, porque a menina-moça de hoje gosta muito de falar e deixou de ser tão anti-social. Algumas vezes ela chora (não tão) escondida e dá gargalhadas sozinha. A de antigamente sabia o que queria da vida, a de hoje só quer uma vida. Aquela sonhava com marido, filhos, casa própria e sucesso profissional; essa se contenta com um emprego, uma foda certa e talvez um filho, mas daqui a muito tempo.

Analisando tudo isso, chego a conclusão de que na verdade, eu matei a sonhadora, a que achava que o mundo poderia ser um lugar legal e que a vida é uma aventura. Talvez, a outra se sentisse à vontade nesse corpo e nessa coisa que eu levo. Talvez ela não esteja realmente morta, esteja só dormindo e algum dia venha me cobrar a conta disso tudo, saber o que eu fiz conosco. Com ela.
 

Greta Garbo, quem diria, foi parar no Irajá as 5:01 PM